Cores Que Falam

Andre Crespo Foi ainda menino, na escola, que André Crespo aprendeu que o encanto causado pela sua arte tinha poder: uma caricatura irônica no momento certo, etéreos retratos das meninas mais bonitas, um desenho caprichado no meio da aula e voilà! Estava enturmado, arrancava suspiros das garotas e ganhava a simpatia dos professores, até que era expulso e começava tudo outra vez na escola seguinte. Num curto período da adolescência, chegou a se achar “O Artista”. Dedicou este período aos experimentos: pintura sobre trapos de malha, mistura de tintas e técnicas incompatíveis e estilos que não eram bem o seu. Até que se encontrou. Não chegou a terminar a faculdade de Artes Plásticas na FAAP, mas seguiu um obstinado aprendizado extra-acadêmico, trabalhando duro como assistente para pintores veteranos, que o introduziram efetivamente no mundo das artes. Já se passaram quase dez anos desde a sua primeira exposição individual, aos vinte e cinco anos. De lá para cá, já expôs, ao lado de grandes nomes da arte contemporânea, em dezenas de museus e galerias do mundo, incluindo o Louvre.  Crespo trabalhou com cinema e publicidade. Mas não precisou matar ninguém dentro de si para fazer nascer o artista, porque já nasceu artista. Não houve revolução. Apenas revelação. Não fez loucuras. Não passou fome. Não teve briga na família quando abandonou tudo para se dedicar exclusivamente à sua arte. Não houve ruptura. As coisas aconteceram gradativamente, por puro mérito, conforme as encomendas aumentavam e os convites para exposições exigiam viagens. Mais do que procurar o sucesso, era a arte quem o procurava, através de colecionadores, marchands, galeristas e curadores. Hoje, ao falar de seu trabalho, Crespo passa uma sensação de equilíbrio. Já é maduro e ainda é jovem. Não há arrogância nem prepotência no seu discurso. Nem humildade ou modéstia excessivas. Não é metódico ao extremo, muito menos desleixado. Tem técnica, mas não perde a espontaneidade. Ele sabe que tem talento. E soube aprimorá-lo. Encara com naturalidade o reconhecimento crescente. E deixa que seu trabalho fale por si.  Dono de gestos amplos, Andre Crespo joga para trás uma mecha do cabelo escuro  que cai sobre os olhos enquanto ele conta as histórias por trás de cada obra, com um copo de whisky on the rocks na mão. No seu estúdio tudo é harmônico. A playlist toca jazz, folk, MPB, bossa nova, música turca, francesa e mais um pouco de tudo. O caos é organizado a ponto de Crespo encontrar imediatamente o que procura, na sala onde fica guardado o acervo, criteriosamente catalogado por Cinthia, sua mulher.  As primeiras grandes encomendas vieram dos aficionados de carros, motos, cavalos, jogos de polo e de golf. Viram que o detalhismo de Crespo era capaz de, com belas manchas de cor, retratar o ronco de um motor, a tensão em cada músculo do cavalo e do cavaleiro durante um jogo, ou a velocidade da grama e da terra que voam junto com a bola.  Crespo depois usou essa força em quadros que fez para si, representando as jogadas do time de futebol favorito e o fervor da torcida. Pintou também marinas e mulheres. Mas o que o tornou célebre foram as paisagens urbanas. Principalmente de São Paulo, que é por onde ele transita, e também de cidades da Europa ou do litoral brasileiro. As cores são vibrantes. A pincelada, gestual. As pinturas são baseadas em fotos que ele mesmo faz, com o olhar de quem já trabalhou com cinema. Dialoga com a cena. Acrescenta elementos imaginários, elimina o que não é estético. Pinta o que viu e o que sentiu. E contagia quem vê as telas com as mesmas sensações. Consegue captar o astral de um momento.  A vibração. A temperatura. Quase os sons. Os cheiros. Alegria, melancolia, talvez um leve pilequinho. Até o estado de espírito transparece ali, em traços soltos e imprecisos. Em cores que podem não ser as reais, mas são as que melhor traduzem a atmosfera. Ao olhar para uma tela de Crespo, vestimos seus olhos.